O mercado brasileiro de iates sentiu menos a crise financeira global do que a Europa e os Estados Unidos. Esperava-se um tsunami, mas ficou mais para marolinha. A demanda por embarcações de esporte e lazer - com preços que podem ir de R$ 70 mil a R$ 3 milhões ou mais - caiu no país no fim de 2008, mas recuperou-se na primeira metade de 2009. O desempenho do setor despertou o interesse de fabricantes de barcos da Itália e dos EUA, que viram no Brasil uma boa oportunidade de negócios uma vez que seus mercados de origem, na Europa e na América do Norte, foram duramente afetados pela crise.Nesses mercados vigora um modelo de venda em que os compradores dos iates contam, na maioria dos modelos, com financiamento bancário. No Brasil, as vendas de iates costumam ser à vista, embora nos últimos anos bancos privados também tenham passado a financiar embarcações. Com a crise, as vendas caíram e os estoques cresceram, o que levou fabricantes europeus e americanos a saírem em busca de negócios nos mercados emergentes, incluindo o Brasil.A entrada, em maior escala, de iates de luxo importados, como o italiano Azimut, aumentou a concorrência no mercado brasileiro, e provocou reação de estaleiros nacionais que produzem em série embarcações de esporte e recreio. O Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) encaminhou ao governo, por meio da diretoria náutica da entidade, pedido de aumento do imposto de importação.A proposta é aumentar esse imposto de 20% para 35% - o teto da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul - por um período de dois anos. "Não somos contra a concorrência justa pois somos competitivos em termos de custo. Lutamos contra a concorrência internacional oportunista", diz Luís Henrique Moreira Ferreira, diretor da área náutica do Sinaval e presidente da Vellroy Estaleiros do Brasil, de Osasco (SP), fabricante das lanchas Intermarine e que tem licenciamento para produzir no país modelos da marca Azimut adaptados ao mercado brasileiro.A marca Intermarine é controlada pela família de Gilberto Ramalho, morto este ano em um acidente de helicóptero. A marca detém 70% do mercado nacional de iates acima de 40 pés (13 metros de comprimento). Ferreira estima que esse segmento demanda, em condições normais, entre 140 e 150 unidades novas por ano. Os iates importados poderiam abocanhar uma fatia de 30% desse mercado, projeta. Segundo ele, o pleito para aumentar o imposto foi encaminhado pelo Sinval ao Ministério do Desenvolvimento (Mdic).Carlos Eduardo Macedo, coordenador geral das indústrias de transporte aéreo, aeroespacial e naval do Mdic, confirmou que o pedido do Sinaval está em análise. Ele disse que uma eventual decisão sobre o tema terá de envolver o Ministério da Fazenda. Empresas que representam fabricantes de iates estrangeiros consideram que o movimento para elevar o imposto é uma tentativa de evitar a concorrência e cobrar mais caro pelo produto em vez de elevar a qualidade para concorrer com o importado."A atitude de tentar aumentar o imposto de importação é um tiro no pé", diz Marco Antonio do Carmo, diretor-executivo da YatchBrasil, empresa que representa no país quatro estaleiros que produzem embarcações de esporte e recreio: Sea Ray (EUA), Azimut, Benetti e Atlantis, da Itália. A YatchBrasil está colocando o iate Azimut de 47 pés (cerca de 15 metros) no Brasil por R$ 3 milhões. O barco da Sea Ray de 35 pés (11 metros) chega aqui por R$ 1,1 milhão.Os valores consideram os encargos de frete, seguro e despachante além de todos os impostos (imposto de importação, PIS-Cofins, IPI e ICMS). Esses custos somados representam cerca de 85% a 100% de acréscimo sobre o preço do navio na origem. Carmo diz que os iates importados são entre 15% e 20% mais caros que os nacionais e que eles atendem um nicho no qual qualidade e marca fazem a diferença. É como uma pessoa que importa uma Ferrari, compara.Para 2010, a YatchBrasil espera vender entre 50 e 60 barcos novos (de 30 a 60 pés), um aumento de 25% sobre 2009, diz Carmo. Ele avalia que há espaço para os iates importados e os nacionais. A YatchBrasil foi formada por empresas que eram representantes comerciais da Intermarine. A nova empresa passou a ser concorrente direto do líder de mercado de grandes iates no país.Ferreira, o presidente da Vellroy, diz que este ano a empresa deve produzir 50 embarcações empregando 700 pessoas. O plano para 2010 é produzir 90 barcos, o que poderia duplicar o número de empregos. Em 2009, a empresa pôs em prática um plano de redução da produção em função da crise. Mas a rápida recuperação surpreendeu e a empresa não pôde atender parte da demanda que surgiu após a retomada uma vez que não programou encomendas de motores com a antecedência necessária. Os motores precisam ser encomendados aos fabricantes no exterior (Volvo, Caterpillar e MAN) um ano antes da entrega dos navios.Márcio Schaefer, presidente da Schaefer Yatchs, com estaleiro em Palhoça (SC), diz que o mercado de iates no Brasil está voltando aos níveis de produção pré-crise. A Schaefer produz cerca de 20 barcos por mês com tamanhos de 26 a 50 pés e preços de R$ 130 mil a R$ 2,8 milhões. Apesar da crise, a empresa investiu cerca de R$ 6 milhões este ano na construção de um centro de usinagem para fabricar novos produtos. O investimento total, a ser concluído em 2010, pode chegar a R$ 15 milhões.Schaefer afirma que a redução de ICMS aplicada à indústria náutica em alguns estados, como Santa Catarina, também está beneficiando as importações. "Não pode o (iate) importado pagar menos imposto do que o nacional", afirma. Lenilson Bezerra, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar), diz que no São Paulo Boat Show, em outubro, ficou claro o movimento dos fabricantes estrangeiros na prospecção do mercado brasileiro.A Acobar considera que a importação ainda não é predatória e avalia que o aumento do imposto de importação seria uma forma de a indústria nacional se prevenir. Levantamento da entidade indica que a frota brasileira de embarcações de esporte e lazer era de 53 mil unidades, considerando barcos acima de 14 pés (o levantamento é de 2005). O trabalho analisou 209 estruturas de apoio náutico que apresentaram, em média, 131 vagas das quais 101 ocupadas por embarcações de recreio. A avaliação do Sinaval, porém, é de que existem no país só cerca 30 marinas com toda a estrutura necessária para embarcações de recreio, incluindo garagem e serviços de manutenção e abastecimento.(Fonte: Valor Econômico/Francisco Góes, do Rio)